terça-feira, 8 de junho de 2010

Edith Sitwell 1887-1964


Poeta inglesa, crítica, biógrafa, novelista e jornalista.
Manteve relacionamento íntimo com Virgínia Woolf; 
com a sua governanta e professora de Francês Helen Rootham -excelente tradutora- e foi amiga, com grande cumplicidade de T.S.Eliot.
A poesia de Edith Sitwell tem a chancela do modernismo de 90;
a rara qualidade expressa na sua poesia, não o moderno "selvagem",mas o estilo fino e experimentalista do poema, condensado em imagens dum
jogo poético, ora de discernimento e do oposto [o nonsense],
ora do metaforismo harmónico, oposto pelo dissonante...  
Nos anos que decorreram,  em 2007, passaram 120anos do nascimento de Edith Sitwell.

[...] Ah, em que era eu inferior à Morte,
Que à verdade faltasses? Agora, docemente, ó Idade,
Minha só companheira, aperta-me com força, para que eu
Esqueça o teu beijo. Os fogos foram do meu peito.
E, todavia,com se em chuva se fizessem,
O próprio coração, as minhas lágrimas
são fiéis ainda.
[...] Ah, em que era eu inferior à Morte,
Que à verdade faltasses? Agora, docemente, ó Idade,
Minha só companheira, aperta-me com força, para que eu
Esqueça o teu beijo. Os fogos foram do meu peito.
E, todavia,com se em chuva se fizessem,
O próprio coração, as minhas lágrimas
são fiéis ainda.

Há outra linguagem da Morte?
Por isso aqueles de que temos saudade voltam
Não mais! Por breves palavras de amor dizem...

Como ouviremos no clamor de Babel?
Não fazem ruído:
Os grandes movimentos do mundo passam sem estrondo;
Os dourados jovens,
Primavera grande, ao pó voltam como a quem amem...
E parte-se o coração sem ruído.*



Escreve Jorge de Sena a propósito da poesia de E.Sitwell:
 "[...]é uma lição e um exemplo de arte poética, como é
também da magna missão oracular da poesia, está longe
de ser simples. Todo o seu estilo visa à expressão directa
de uma complicada transfiguração. As imagens sucedem-se,
inteligíveis na sua beleza inesperada, mas misteriosas na
relação para com a transfiguração que representam. Uma
mulher de olhar profundo se contempla se contempla e ao
fluir da vida, sabendo as formas que o fluir em todos os
tempos tomou. E a sua poesia, para significar essa presença
permanente do que se passa, é um sound like fear 'som como
terror', no qual segundo disse W.B.Yeats, 'regressa à literatura
algo ausente: [...] paixão enobrecida pela intensidade,
o sofrimento, a sabedoria' [...]".
________
*Poema The Road to Thebes,
traduzido por Jorge de Sena,
ed.Relógio D´Água, Maio de 2005.

a propósito de um poeta concretista

Conheci Carlos Drumond de Andrade em 1980, no esplêndido jardim da sua casa de Ipanema, no Rio de Janeiro.
 Foi pelas nove da manhã quente de 28 de Outubro que, sem aviso, lhe bati à porta. Mais três dias e apanhava-o no dia do septuagésimo oitavo aniversário. É Drumond quem me abre a porta. Algo circunspecto, deparo com o poeta que apenas conheço das fotografias da Imprensa e das "badanas" dos seus livros. Ele mesmo em carne e osso. Confesso que senti alguma emoção quando o encaro, e verifico a perfeita fotogenia da sua figura tímida e nobre, do azul esbatido do seu olhar vago. Mas, logo me explica "desculpe mas pensei que fosse um meu familiar e..."Disse-lhe ao que vinha, e quem me deu o contacto.Percebi que ficou contrariado ao dizer-me "não dou entrevistas desde há algum tempo. O que podia falar já foi dito e, se mais há para dizer, pode sabê-lo lendo o que escrevo está lá a minha vida. Peço-lhe desculpa mas sinto-me doente..."
Posso ao menos perguntar-lhe por que escreve, esquecer para lembrar?
 Com um leve sorriso insiste: "não me queira dar a volta de jornalista, porque eu também o sou e sei como essas coisas se fazem..., creia que já não dou mesmo entrevistas... No Esquecer para Lembrar,  que este ano [1980] foi reeditado, está lá muita coisa de mim, se é o que quer saber".