terça-feira, 8 de junho de 2010

a propósito de um poeta concretista

Conheci Carlos Drumond de Andrade em 1980, no esplêndido jardim da sua casa de Ipanema, no Rio de Janeiro.
 Foi pelas nove da manhã quente de 28 de Outubro que, sem aviso, lhe bati à porta. Mais três dias e apanhava-o no dia do septuagésimo oitavo aniversário. É Drumond quem me abre a porta. Algo circunspecto, deparo com o poeta que apenas conheço das fotografias da Imprensa e das "badanas" dos seus livros. Ele mesmo em carne e osso. Confesso que senti alguma emoção quando o encaro, e verifico a perfeita fotogenia da sua figura tímida e nobre, do azul esbatido do seu olhar vago. Mas, logo me explica "desculpe mas pensei que fosse um meu familiar e..."Disse-lhe ao que vinha, e quem me deu o contacto.Percebi que ficou contrariado ao dizer-me "não dou entrevistas desde há algum tempo. O que podia falar já foi dito e, se mais há para dizer, pode sabê-lo lendo o que escrevo está lá a minha vida. Peço-lhe desculpa mas sinto-me doente..."
Posso ao menos perguntar-lhe por que escreve, esquecer para lembrar?
 Com um leve sorriso insiste: "não me queira dar a volta de jornalista, porque eu também o sou e sei como essas coisas se fazem..., creia que já não dou mesmo entrevistas... No Esquecer para Lembrar,  que este ano [1980] foi reeditado, está lá muita coisa de mim, se é o que quer saber".

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